3. A Bossa Nova e as Influências Santuza: Você acha, então, que você não teve influência musical do seu pai? Edu: Não, não acho mesmo. Eu tive influência exatamente de outras pessoas, porque a minha história musical toda começou com essas pessoas todas: com Vinicius [de Moraes], com Tom [Jobim], com Carlinhos [Lyra], com Baden [Powell], com Oscar [Castro Neves], enfim... Foi a partir desse momento que eu fui comprando os discos, me interessando pelo trabalho deles e convivendo com eles, que eu fui virando músico. Eu não sabia que ia ser músico. Santuza: Então foi por outros caminhos a sua formação musical. E o seu segundo instrumento, qual foi? Edu: Foi o violão. Eu fui indo para o violão. Quando eu descobri o violão, eu fiquei realmente ligado em música. Santuza: Quando? Teve a ver com a bossa nova ou foi anterior? Edu: Teve a ver com a bossa nova, 57, 58. Aí começaram a chegar os discos do João [Gilberto], do Carlinhos [Lyra]... O primeiro disco do Carlinhos, na Polygram, eu lembro que ouvi nessa vitrolinha mesmo. Não lembro mais o título, mas tinha aquelas primeiras canções do Carlinhos da Philips, ainda não era nem ainda Polygram. O João gravava na Odeon. Aí a bossa nova foi uma revolução. Santuza: Você não pensava em ser músico, tanto é que você chegou a estudar Direito, não é? Edu: Estudei Direito sem muito empenho, dormindo muito nas aulas. Santuza: Mas você se formou em Direito? Edu: Não, fui até o terceiro ano. Eu estudei na PUC três anos. Santuza: O que eu acho interessante nos músicos da sua geração é que eles entraram no meio musical assim de repente, por acaso... Edu: Muita gente que ficou no terceiro ano de Arquitetura, não é? Santuza: Arquitetura, então, é impressionante. Quase todos os músicos fizeram Arquitetura. (risos) Edu: Eu, surpreendentemente, nunca consegui ser bom aluno em matemática.. Eu digo que é surpreendente, porque a música tem uma relação muito forte com a matemática. E eu tinha um total pânico de matemática e total inabilidade em lidar com números. Aí fui fazer o Clássico para ficar livre disso e fui para na PUC fazer o curso de Direito. Mas já no terceiro ano eu praticamente não ia, só ia para tocar violão no diretório. E, quando vi, já estava mesmo na música. Santuza: Então você não tinha mesmo idéia de ser músico? Edu: Não, nenhuma idéia. E eu tive muita sorte, porque eu nem enfrentei esse momento em que as pessoas têm que decidir o que fazer da vida: as coisas foram acontecendo, foram rolando e, quando eu vi, eu já não estava mais na faculdade. Santuza: Já estava entrando na vida artística? Edu: É. Mas eu não ia ser advogado, quer dizer, eu estava fazendo Direito para seguir a carreira diplomática. E eu não sei como eu estaria hoje em dia, porque não tem nada menos parecido comigo do que a carreira diplomática. Mas, enfim, isso era o que eu tinha mais ou menos projetado para minha vida. Mas fui salvo pela música. Santuza: Quando você sentiu que você se tornou músico, que a sua identidade passou a ser marcada pelo fato de ser músico? Edu: Bem, eu conheci o Vinicius e, nessa mesma noite, ele fez a letra para uma música minha. Santuza: Isso foi em que ano? Edu: 62, pode ter sido. Eu tinha 19 anos quando conheci o Vinicius numa festa,em Petrópolis, na casa da Olivia Hime.Eu acho que essa letra do Vinícius deve ter me dado a impressão de que eu valia a pena, porque o Vinicius era um ídolo que eu conhecia não só da música popular, mas da poesia, que eu lia muito. E, de repente, eu tinha uma música com o Vinicius. Santuza: E que letra é essa? Edu: Só me fez bem.. Nessa mesma festa, ele foi lá para um canto e fez a letra. Isso passou a ser uma espécie de passaporte para eu me apresentar em qualquer lugar. A partir daquele dia eu era parceiro do Vinicius de Moraes .Não era mais o cara da faculdade que fazia uma musiquinhas. Santuza: Aí você passou a ser o músico que, por acaso, estava na faculdade. (risos) Edu: E não é só isso, quer dizer, não só a questão da canção com o Vinicius, mas o acesso que eu tive a todas as outras pessoas por causa do Vinicius: o Tom [Jobim], o Carlinhos [Lyra] e o Baden [Powell], que eram os três parceiros principais dele, e depois o Luisinho Eça, o Oscar Castro Neves, enfim, todo mundo que fazia bossa nova na época. E tinha essa história das casas do Rio de Janeiro, que eram abertas para todo mundo e onde se tocava música o tempo inteiro, que foi do que a minha geração se beneficiou fantasticamente. Santuza: Destes músicos todos dessa primeira geração da bossa nova, quem você acha que mais te influenciou? Foi a batida do João Gilberto? Edu: Olha, tantas coisas... Porque a bossa nova mexeu em tanta coisa, foi uma revolução que teve uma importância tão grande do ponto de vista formal. Bossa nova é revolução harmônica, melódica, poética, e vocal. E mais ainda: instrumental. Você tem uma nova batida, com um novo cantor, como nunca teve no Brasil nada parecido, como foi o João Gilberto. Porque a voz dele é integrada no violão, a voz vai por dentro do que ele está tocando, é como se fosse uma coisa só. Não tinha isso na época. Quer dizer, você tinha o [Dorival] Caymmi, que cantava com o violão, mas era completamente diferente. Só isso já justificaria o movimento inteiro, porque é uma mudança. E cantando com a voz curta, só que absolutamente afinada e super interessante, nova. E depois, acordes nunca usados em música brasileira e melodias também, porque os acordes eram novos, as cadências eram originais..E aí as letras começaram com o Vínicius, depois outros autores. Quer dizer, era uma mudança formal, uma revolução como nunca houve, eu acho. É realmente o início, o grande início da música moderna brasileira. É como se fosse o impressionismo do final do século XIX, que deu raízes de tudo quanto é jeito. Para mim, tem essa importância em relação à música brasileira. Heloísa: O Cazuza, por exemplo, com aquela música 'Faz parte do meu show'. Edu: Que é uma música tipicamente bossa-nova.Então é um engano o historiador querer determinar o dia em que a bossa nova começou e o dia em que acabou. O que acontece é o seguinte: a moda da bossa nova acabou, como a moda do impressionismo acabou um dia. Os movimentos têm seus piques de moda; aí vira uma dança, ou não vira mais nada. Agora, o movimento que realmente revoluciona e que tem importância real, se transforma, e permanece para sempre. É essa a história dos inventores. O impressionismo, que Debussy e Ravel inventaram, não acabou. Ele continua na música do Stravinsky, continua num jovem compositor clássico ou popular, a música de cinema está cheio de "debussysmos", e "ravelismos". Então essas coisas que são inventadas de verdade não acabam.
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