9. Brasil: o país de todos os sons Santuza: Você não acha que o Tom tem um influência fortíssima do Radamés Gnattali? Edu: Com certeza. Santuza: Então você chegou naquele ponto que eu estava pensando, isto é, numa árvore genealógica que de certa forma começa com Villa-Lobos, passa por Radamés, Tom... Eu acho que você dá continuidade a essa tradição, porque a sua música me passa a idéia de pujança, de exuberância muito forte. Edu: Espero muito que sim. Que essa música que eu faço tenha muito a ver com o Brasil. Com uma sonoridade brasileira. Santuza: Mas, você também, como compositor, conseguiu fazer uma estética muito original. E me interessa muito isso esse seu procedimento de buscar textos musicais em Recife, por exemplo, como uma maneira de recriar, de fazer uma coisa nova. Eu queria saber sobre a sua a maneira de lidar com esses textos musicais legados pela tradição. Essa discussão me interessa, porque eu estou estudando os músicos da sua geração e a impressão que eu tenho é que vocês dão continuidade a um certo gesto modernista, que começa com Villa-Lobos, de trabalhar os textos legados pela tradição, mas no sentido de recriar esses textos. Entre os músicos de sua geração você é mais músico, não é? Quer dizer, você é muito mais músico do que cancionista, pelo menos na minha opinião... Edu: Músico em um sentido de compositor, porque eu não sou um músico instrumentista, eu não elaborei isso. Santuza: No sentido de compositor, de elaborar melodias com harmonias sofisticadas. E me parece que você tem esse gesto modernista e eu queria que você me falasse um pouco sobre isso, sobre esse gesto de incorporar textos legado pela tradição e de recriar esses textos. Isso me lembra muito também o Radamés [Gnattali], que tem uma formação erudita e acaba fazendo música popular. E continuou fazendo as duas coisas e sempre trabalhando com texto legado pela tradição, recriando. Edu: E profundamente interessado no Brasil. Santuza: Profundamente. E o que me passa muito na estética de vocês, na sua música, é uma representação de Brasil como um país pujante em termos culturais e naturais. Queria que você falasse sobre isso. Edu: Eu acho isso. Eu acho que essa escolha não só do Villa e do Radamés [Gnattali], e de outras pessoas da música popular que fizeram isso, não é nem por uma questão de nacionalismo, não é uma coisa de ufanismo brasileiro. Eu acho que é exatamente por perceber que a gente está em um país muito rico e que não há necessidade de pegar emprestado nada de fora. O Brasil é um país extraordinariamente rico musicalmente. Agora, nessa época, quando eu estava fazendo essas experiências, eu tinha muito pouco contato com a música do Villa, eu estava começando a conhece-lo. Por isso é que eu estava dizendo que não foi de forma consciente a idéia de partir de uma coisa da tradição. Stravinsky fala que tradição é uma coisa muito mais forte do que hábito. Hábito é uma coisa que você adquire de uma forma inconsciente; a tradição não, a tradição você decide, você percebe que vale a pena e que tem tudo a ver, que vai informar. Ele diz que a tradição é uma coisa do passado, mas que forma o presente e cria o futuro. Eu acho que eu fiz isso de forma inconsciente. Santuza: Eu queria que você me falasse mais um pouco sobre o Villa-Lobos. Você admitiu, no início da entrevista, uma influência do Villa em suas composições. Você disse que o Villa marcou não só a sua obra, como inclusive a bossa nova, que teria incorporado a alma do Villa. Edu: Com certeza. Santuza: Quando foi que você descobriu o Villa-Lobos? Edu: Eu acho que nessa época: 63, 64, em que as pessoas ouviam muito as Bachianas. Era o que mais se ouvia do Villa. Tem as Bachianas no "Deus e o Diabo" do Glauber. Não me lembro exatamente, mas grande parte do filme tem as Bachianas, não é? Então foi uma paixão mesmo que começou. Bom, eu já tinha contato com o Tom, que era alucinado por Villa. E aí começou quase que um trabalho de garimpo, destes 35 anos para cá, comprando todas as partituras, quase todas fora do Brasil. Até existir o museu Villa-Lobos, onde existem as partituras, onde você pode fazer xerox, você tinha que viajar para comprar não só as partituras como os discos do Villa. Porque entra aí o Brasil com as suas indelicadezas, são coisas inacreditáveis... Se você chega nos Estados Unidos, você tem tudo, de todo o mundo, qualquer coisa. Musical da Broadway, você tem a partitura inteira se você quiser. Estou falando de um bom musical da Broadway: tem lá o libreto inteirinho, com todas as harmonias. Santuza: Mas que tipo de influência você acha que o Villa exerceu sobre você? Edu: Total. Se eu fosse comparar o Villa com alguém... Tem compositores pelos quais eu tenho a maior admiração, mas é como se fosse assim num exemplo que vai parecer grosseiro, mas não é... Você admira um compositor como se fosse uma bela casa , mas percebe que é um lugar onde você jamais moraria. Villa-Lobos é a casa em que eu moraria. Santuza: Você se sente em casa. (risos) Edu: Então, por exemplo, quando eu observo o Stravinsky, que é uma paixão da minha vida também, eu o observo como uma casa difícil para mim, para se contemplar de longe, onde eu não teria conforto. Mas é claro que o defeito não é da casa e sim do morador.O Villa-Lobos me traz todas as lembranças, com as Cirandas, que estão todas na minha cabeça. O que ele fez com essa canções populares, aí é uma outra história. É realmente uma recomposição. Ele dá essa indicação do que fazer com a música brasileira, de como ser brasileiro da melhor maneira possível e sendo absolutamente universal. Santuza: E original, também? Edu: Original exatamente por isso, porque é uma linguagem que ninguém tem no mundo, você tem que ser um brasileiro para fazer isso. O que eu sinto muito, quando eu ouço o Villa - voltando àquela história do suingue -, é que o Villa, como tem essa alma popular fortíssima, que é também das grandes riquezas da obra dele, dependendo da orquestra ,isso se perde um pouco. Você ouve o Trenzinho caipira com uma orquestra alemã, ou com uma orquestra francesa... Há um suingue no Trenzinho, fundamental, e tem aquele percussionista que lê: "Vec, funf, trunf, caf, trunf". Lê certo,como está escrito, mas falta a ginga, o jôgo de corpo.Tem que ter um sangue meio negro, ou de índio, uma coisa do Brasil. Está tudo lá no Villa. Acho que Villa-Lobos é o melhor caminho para a música brasileira. Eu falo isso não só para a música erudita não, mas para a música brasileira em geral: popular, médio-popular, o que você quiser chamar de música com todos os nomes. Santuza: E parece que ele influenciou muito e continua influenciando até hoje a música popular, não é? Edu: O tempo inteiro, o tempo inteiro.
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