12. O mito da "inspiração" Santuza: Explorando outros aspectos do processo de composição, o que te leva a compor? Edu: Eu acho que eu tenho dificuldade de compor sem motivo, quer dizer, sem mote, eu sou meio ruim nisso. Eu acho que é uma limitação que eu tenho, eu brigo muito com isso. Se eu tiver três projetos, eu produzo alucinadamente. Agora, se não tiver, é uma espécie de preguiça que se estabelece, eu passo a ser ouvinte, me distraio. Tem uma história do Cole Porter que é engraçada. Teriam perguntado a ele: "Como é que o senhor compõe? O senhor vai para a sua casa não sei onde e aí tem que estar tudo em silêncio às três da manhã, o que é que coloca o senhor in motion?" Ele respondeu: "A call from the producer." (risos) E é assim também comigo: o telefonema quebra a preguiça, a letargia.Uma outra história que desconstroi um pouco essa mitificação que se faz da criação musical é uma do Stravinsky. Ele escreveu uma peça para orquestra de cordas chamada Apollon Musagetes e um repórter lhe perguntou: "Maestro, o senhor estava pensando na Grécia o tempo inteiro quando estava compondo "Apollon"? Ele respondeu: "Não, meu filho, eu estava pensando na orquestra de cordas". (risos) Eu acho genial isso, porque quebra logo essa coisa mitificada. A pergunta pressupõe que o cara tem que passar o dia inteiro ouvindo música grega ou lendo os livros e entrar em barato grego para poder compor. Não é nada disso, ele está pensando nas cordas, é verdade, é isso aí mesmo. Santuza: Uma atitude clássica. Edu: É, nessa atitude de artesão, do sujeito que trabalha com objetos, que encaixa,corta,dobra,raspa,pinta: é um trabalho de especulação. Qualquer trabalho artístico é trabalho de especulação. O Stravinsky fala um negócio interessantíssimo sobre o acidente, que o acidente pode ser extremamente inspirador: você escorregou a nota no piano, errou, tocou outra e descobriu que o suposto êrro era um grande acêrto. Porque o cérebro está ligado, e se você estiver ligado.... É, se fala muito nesse negócio de inteligência dos dedos, que os dedos têm uma inteligência própria, que às vezes é melhor deixar que eles descubram as notas... Não sei. Eu acredito nisso, nesse acidente que você seleciona na hora e o transforma na coisa melhor. Eu acho isso, eu gosto de pensar desta forma, que o meu trabalho não é nada além de um artesanato e que pode ficar melhor a cada dia, para mim e para os outros. Mas para mim é exatamente assim. Quanto existe o mote, eu começo já a pensar e tenho idéia da música, tenho vontade de sentar no piano, parece que as idéias todas começam a brotar. E tem a data de entrega, então eu não durmo direito. Aí a gente volta à questão da inspiração. Não é que ela não exista, mas ela não existe desta forma mística que as pessoas atribuem. Você está no meio da rua e é tomado por uma coisa, você tem uma melodia inteira na cabeça, sai correndo, vai para casa,para o piano... Isso nunca me aconteceu e eu sempre digo : nunca nenhuma melodia me perseguiu; eu passei a minha vida inteira perseguindo as melodias. Eu acho que existe uma coisa chamada "disposição", que é provocada pelo seu próprio trabalho. Você começa a trabalhar e sente que está alguma coisa rolando e que alguma coisa que você está fazendo te estimula, você percebe que isso vale a pena. Santuza: Eu me lembro de ter ouvido você dizer o seguinte: "Olha, eu não sou um compositor erudito, eu sou um compositor que faz música popular, mas que tem formação técnica." Você disse que havia até um certo preconceito contra a formação técnica, como se ela afetasse a autenticidade da música, a espontaneidade. Eu queria que você me dissesse, a partir daí - já que a gente concordou que a música brasileira é muito rica, por causa dessa flexibilidade toda, da interpenetração das diversas informações -, como é que você vê o desenvolvimento da sua música, desde o início da sua carreira até agora. Edu: Eu iniciei com músicas em festival. O fato de ter vencido um festival foi importante, não exatamente por causa da música que venceu o festival, mas pela possibilidade mostrar as outras. Era nisso em que eu estava interessado, porque uma música só não resolve o problema. Evidentemente que quando você fica meio exposto, as pessoas prestam atenção nas outras músicas. Mas depois, sei lá, desses 4, 5 anos de profissão, coisa meio rápida demais, sem eu saber direito o que é que estava acontecendo, eu acho que eu tive a necessidade mesmo de dar uma parada na minha vida. E tive necessidade absoluta de estudar, isto é, de ter controle sobre o meu trabalho. Eu precisava saber o que é que eu fazia, compreender meu proprio processo criativo. E eu achava que eu correria riscos se ficasse somente produzindo. E talvez tenha sido uma intuição, ou uma premonição, de que o rádio não ia ser sempre democrático como o da minha época, que um dia isso ia mudar, que as músicas não iam tocar da mesma maneira. Santuza: E também esse desejo de um aperfeiçoamento técnico.
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